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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Encontros...


"Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros."
Clarice Lispector
Um tempo nebuloso com atmosfera quente, gotas d'águas em rítmo intermináveis caindo do céu, dizendo a terra  que  ela precisava ser banhada por um bom tempo...
Num toque de campainha, ele destranca a porta espelhada, (ela nem nota que seu corpo não reflete na porta)
uma ansiedade momentânea percorre pelas veias dela no momento que as mãos dele empurra a porta, o rugir é o único som  perceptível naquele momento, um coração nervoso e uma tranquilidade quase que incômoda espera um abrir...ufa! Ele a recepciona carinhosamente como se fossem velhos amigos se reencontrando depois de uma longa data, a introduz para dentro do seu estúdio musical, cheiro de madeira envernizada paira no ar juntamente com notas, colcheias perdidas naquele encontro quase tímido, sussurando docura ao  tempo...
Num gesto simplório, ele enchuga os pés dela molhados pelas águas correntes que persistem cair fora daquele refúgio. Surge  uma cumplicidade espontânea , num ambiente amistoso há somente ele e ela.
A canção entra no ambiente melodiando o rítmo cardíaco daqueles seres, ele canta para ela com um timbre  doce, entregue a sua arte...Como na música as peculiaridades são refletidas  através das  ondas  invisíveis  como mensagem a sensibilidade, ele revela um olhar sincero e cúmplice, sorriso singelo de uma alma envelhecida....
Entre conversas, olhares quase que perdidos, surge tatos...mãos massageam nucas, costas, coxas, tornozelos, pés... no toque de uma epiderme a outra, se transparece energias enclausuradas de almas frágeis, surge o poder do desejo...pontos chacras são massageados, ele ativa a energia que estava adormecida.
A consciência dela se despertou para a finitude daquele instante infinito, como na melodia ela recebe o maior tom da nota, desvairando a sua lucidez niilista, há algo metafísico que a reflete...(eixo foi centralizado logo em seguida, se encontrando em si mesma)
Na padaria tomaram café quente, tudo se redimiu àquela tarde que parecia vazia à redundante monotonia dos logistas e comerciantes em volta da praça central de um dia insosso pela chuva. Ele e ela agora dialogavam  com suas bocas,  palavras saiam tão naturalmente que era inotável entre as pessoas que entravam e saiam daquela padaria,mas só eles sabiam que havia significância reveladas entre eles. O tempo para os dois já não era o mesmo que percorria pelo tic tac da parede.
Em meio a evasão das pessoas, ele  a deixa na estação de trem, se despedindo...
A água já não batia ferozemente contra o solo de uma terra desgastada naquele momento, ela ao enconstar a sua cabeça na janela do vagão, sentiu a linguagem harmônica daquela tarde vivenciada  pois a  perceber que a vida na sua forma crua era maior que ela mesma...

Um comentário:

  1. Olá Mariana, cheguei aqui através do blog "Alma Nua" que comecei a companhar hoje, estava lendo suas páginas, e as mesmas são de uma grande sensibilidade, estarei lhe acompanhando.

    Abraços Marco

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