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quarta-feira, 31 de março de 2010

Convexo II

Jardim do ego segue somente a si
irreprocháveis as palavras que ficam...
A ventania sim tem sabor de juventude,
somente ela entra em minhas estranhas
provocando ebulição dos sentidos,
mesmo que em perigo, o tempo se desfaz
ao tempo em que corro entre rabiscos...
As linhas desfazem em meu corpo dilacerante, 
Signos desalinham ao toque de minha pele,
vulva quente lampeja às trovoadas
rastros, rastros...é apenas o que se sente.
  Mariana Tatos

O que é a verdade?

O que é a verdade? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim uma soma de relações humanas que foram enfatizadas poética e retoricamente, transportas, enfeitadas , e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias .

Para muita gente, antes morrer que pensar. É isso que fazem.

Convexo I

A estrangeira veio até a mim perguntando de quem era este novo cheiro, ela sentia um feromônio diferenciado, uma mistura de outras partículas sudoríparas transgredida ao meu corpo. Disse a ela que nada estava sentido, a ausência era a mesma...lesmas andavam em meus cabelos simultaneamente quando alguém disperdiçou sémem em mim no seu estágio de imersão....
A estrangeira me informou que junções de duas partes ocasionam erupções de moléculas,  sendo que uma sempre levará consigo a outra. Eu me pus a ri abertamente, ri tão frouxamente  que ela se limitou a dizer : O caos reina o tempo todo em tudo...olhei no fundos de seus olhos para lhe dizer em silêncio, que somente o desabrochamento de uma flor me basta, pouco me importa  o seu odor, como também a própria flor. A ausência é sempre pernamente eu respondi....A estrangeira me retribiuiu com outro riso gostosamente, saiu com passinhos leves em seu salto de cano longo vermelho a caminhar por outras terras.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Rito I

Fui abduzida por uma força voraz no dia em que andei por terras desconhecidas...E lá estava eu, como uma forminguinha querendo andar por todos os caminhos, deixando rastro de feromônios...

A Casa era grande e amarela, paredes pintadas com alguns desenhos indígenas, alguns apanhadores de sonhos se encontravam pindurados em algumas lâmpadas das salas (pensei, um sonho sempre segue uma luz?)
Logo que cheguei, fui acolhida por uma senhora beirando seus 60anos, de sorriso amarelado, mas tão meigo e doce, que me fez sentir mais que protegida naquele recinto. Ela se apresentou pelo seu nome mas este  logo esqueci, (eu tenho péssima memória para recordar nomes de pessoas) só decorei as linhas do tempo em seu rosto.
Ela me conduziu para um grande salão na parte de baixo da casa, passei por uma pequena porta  de alumínio da sala, e para qual foi a minha surpresa, estávamos ao ar livre, um quintal mesclado com piso de cimento e um jardim com piso de terra e grama. Neste jardim  havia algumas vidas presentes, minuciosas em formas biológicas variáveis e orgânicas,  um pequeno riacho de água doce dividia o jardim , passamos por uma pequena passarela de madeira que alcançava a um outro piso de cimento, que este alcança a uma porta. Ao passar pela porta, a senhora, me fez um sinal para eu me silenciar, a partir daquele momento nínguém dizia a nada a ninguém , só o silêncio se permitia.
Comecei a sentir um cheiro diferente no ar, cheiro de terra, damasco,  alecrim e de madeiras queimadas, e com o cheiro eu vi várias cadeiras de balanço, e nelas haviam pessoas, gente que se expressavam apenas com o olhar, e eu vi os mais diversos tipos de olhares,  alguns alegres, outros desconfiados, alguns  assustadores, outros meigos, alguns ternos, outros excitantes, alguns nauseantes ao universo do nada...

De repente um sinal, todos ficaram em pé, o ritual estava começando...uma fila se formava em direção ao centro do salão, nele havia algumas pessoas e um pequeno balcão,  sobre ele um galão com a ayahuasca. Um a um foi pegando um pouco da bebida num copo descartável e retornando aos seu lugares esperando todos  encherem o copo. Neste momento não sei o porque,  mas fiz uma alusão a época da escola, em que eu junto com amigos fazíamos fila para a merenda escolar, e quando era dia de entrega de chocolate, a fila percorria por todo o pátio da escola...
Num gesto, uma pessoa levantou o copo ao alto e todos os copiaram, disseram alguma frase que eu não me lembro e tomaram a bebida sagrada, inclusive eu.
Soltaram sons new age como busca de hamozinação do ambiente. Eu fiquei marquetando na minha cabeça se o silêncio também não era uma forma de música, uma música que ninguém ouviu, lembrei de John Cage e senti saudades...

sábado, 13 de março de 2010

Amor Fati

"Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos. Isso é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa."

Fernando Pessoa

E eu sou assim...você é assim...nós somos assim...só sei dizer que eu vivo, vivo pulsante pelos cantos deste "mundão de meu Deus" , saltitando, absorvendo,  contraindo e expandindo ao meu amor ao amores do mundo.
Gosto na verdade da idéia de meu apaixonar...e só.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Mulheres admiráveis...

Aproveitando que hoje é o dia internacional da mulher, entre tantas mulheres admiráveis, destaco uma por aqui, seu nome é Leila Diniz
Leila Diniz foi professora, atriz, quebrou tabus numa época em que a repressão dominava o Brasil, bar-ba-ri-zooou ao exibir seu barrigão na praia, vestida só de biquini, e chocou o país inteiro ao proferir a frase: transo de manhã, de tarde e de noite. Era uma mulher de vanguarda, ousada, e abominava convenções. Foi duramente criticada pela sociedade machista na década de 60/70, invejada pela mulherada mal comida da época, e mal vista pela direita opressora.
Além de ser jovem e exuberante, Leila era uma mulher de atitude. Desbocada e transgressora. Falava de sua vida pessoal despudoradamente sem nenhum constrangimento. Concedeu diversas entrevistas marcantes à imprensa, mas a que causou mais burburinho no país foi a entrevista que ela deu ao jornal O Pasquim em 1969. Nessa entrevista, ela, a cada trecho, falava mil palavrões que eram substituídos por asteriscos[adoooooooooro] e achando pouco disse: 'Você pode muito bem amar uma pessoa e ir para cama outra. Já aconteceu comigo'. Sua trajetória arrazante pela vida infelizmente foi bastante curta. Morreu num desastre aéreo no dia 14 de junho de 1972, quando voltava de uma viagem a Austrália aos 27 anos de idade, deixando uma filha de nome Janaina, que foi criada pelo casal Chico Buarque de Holanda e Marieta Severo, seus maiores amigos. Sua rebeldia, seu talento, a sua defesa em favor do amor livre e seus palavrões jamais serão esquecidos.

terça-feira, 2 de março de 2010

Estação


oh meu amor, quando compreenderás que o tempo somente é  fluxo e nada mais além disso...ele flutua como o ar, conservando a liberdade dentro de si mesmo. Nada fica, volta, ou segue, o tempo apenas pulsa, é apenas invariável,  nós somos apenas deglutidos por ele. Sim, nós somos, e não é crueldade, é apenas constatação que todos os dias o Sol cruza o céu de leste a oeste e só.



segunda-feira, 1 de março de 2010

Diálogo

Uma alma conversando com uma outra alma...
-Por que você está vestida?
-Porque alguém tem medo de me ver nua, simplesmente
-Ah, entendo...mas você deve sentir muito calor por debaixo destas malhas, né
-Não, na verdade eu até gosto, é confortável, aconchegante....
-Nossa! Você nem parece uma alma falando...creio que você foi abduzida por eles
-Hum, talvez, mas hoje eu tenho roupas, antes eu não tinha nada, vivia pelada pelos cantos...
 (um breve silêncio entre as duas almas)
 A alma se despediu da outra  e saiu flutuando seguindo o seu rumo sem direção como estava acostumada a fazer,  enquanto flutuava pelos ares , refletia consigo mesma -Bem que a minha mãe me disse que almas são diferentes mesmo, e eu que pensava que era só com os humanos...