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domingo, 4 de abril de 2010

O Volume do Grito

Eu sonhei que era um Serafim e as putas de São Paulo avançavam na densidade exasperante
estátuas com conjuntivite olham-me fraternalmente
defuntos acesos tagarelam mansamente ao pé de um cartão de visitas
bacharéis praticam sexo com liquidificadores como os pederastas cuja santidade confunde os zombeteiros
terraços ornados com samambaias e suicídios onde também as confissões mágicas podem causar paixões de tal gênero
relógios podres turbinas invisíveis burocracia de cinza cérebros blindados alambiques cegos viadutos demoníacos
capitais fora do Tempo e do Espaço e uma Sociedade Anônima
regendo a ilusão da perfeita bondade
Os gramofones dançam no cias
O Espírito Puro vomita um aplauso antiaéreo
O Homem Aritmético conta em voz alta os minutos que nos faltam contemplando a bomba atômica como se fosse seu espelho
encontro com Lorca num hospital da Lapa
a Virgem assassinada num bordel
estaleiros com coqueluches espetando banderillas no meu Tabu
eu bebia chá com pervitin para que todos apertassem minha mão elétrica
as nuvens coçavam os bigodes enquanto masturbavas sobre o cadáver ainda quente de tua filha menor
a lua tem violentas hemoptises no céu de nitrato
Deus suicidou-se com uma navalha espanhola
os braços caem
os olhos caem
os sexos caem
Jubileu da Morte
ó rosas ó arcanjos ó loucura apoderando-se do luto azul suspenso na minha voz


Roberto Piva

Um comentário:

  1. Ajoelho-me diante deste espelho
    esparro rama espasmo sobre azulejos
    rosas ou azuis mata-me morro-te ata-nos
    tanto faças tontos ficam
    esmos êxtases ou
    labutas... fisguei
    ou fisgara-me-lenta vulta?

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